O que eu vou contar aconteceu quando eu tinha 14 anos. Hoje eu tenho 20. Não
foi alguma coisa muito assustadora, mas foi tão estranho que eu jamais vou
esquecer.
Era verão e uma prima que mora no Rio de Janeiro tinha me chamado para ir passar
as férias com ela em um acampamento no interior do Rio (eu não lembro o nome da
cidade). Como fazia tempo que eu não via ela, eu topei.
O acampamento ficava em um lugar maravilhoso perto de um lago e cheio de
árvores, por todos os lados. Era tudo muito lindo, o único problema eram os
insetos, principalmente pernilongos e borrachudos.
Numa noite teve uma festa ao ar livre e eu acabei levando MUITA mordida de
mosquito nas minhas pernas e nos meus braços. Estava coçando MUITO!!! Antes de
ir dormir eu tentei amenizar um pouco o meu sofrimento passando alguma loção,
mas ainda estava difícil para dormir. Eu acabei conseguindo dormir, mas acordei
lá pela uma da manhã de novo, com os braços e as pernas coçando pra valer. Só
que eu tinha esquecido a loção no banheiro, que era no andar de baixo do chalé.
Meio sonolenta ainda, eu levantei da cama. Estava garoando já fazia algum tempo,
e estava bem frio para uma noite de verão. Quando eu desci para o primeiro andar
a porta estava aberta e quando eu olhei lá fora eu fiquei chocada.
Tinha um homem, encostado na grade da varanda que tinha do lado de fora, e
estava olhando a chuva. Ele estava de costas para mim, então não dava para eu
ver o rosto dele. Mesmo estando um pouco abaixado por estar encostado na grade
da varanda, ele era muito alto, e a cabeça ele encostava em um pequeno varal que
algumas garotas tinham improvisado lá fora. A parte estranha disso tudo é que
mesmo parado bem na minha frente... era muito difícil de enxergar ele. Eu
tentava ver os detalhes dele, ombro, braços, mas os meus olhos quase que
deslizavam para o lado. Era quase como se ele não quisesse ser visto.
Mas o que me chocou no começo, era que ele era um homem, e esse acampamento
proibia expressamente a presença de homens ou garotos nos chalés das meninas e
vice-versa. Eu estava um pouco assustada com o que ele podia querer ali. Mas
apesar de tudo eu consegui juntar coragem para perguntar o que ele estava
fazendo ali. "Pensando" ele falou. A voz dele era bem baixa, e soava um pouco
ecoada e distante, mesmo ele estando quase do meu lado. Eu nunca tinha ouvido
uma voz como aquela e nunca ouvi de novo.
Eu abri a minha boca de novo para pedir para ele ir embora, mas ao invés disso
outra coisa saiu. "Qual é o seu nome?" Ele então se virou. A noite estava muito
escura, mas a parte da frente dele estava mais escura ainda, e o rosto dele era
só uma mancha negra. Eu não consegui ver nada.
"Mauro" ele falou. Quando ele falou isso, parecia estar se inclinando na minha
direção. Então de repente uma onda de medo tomou conta de mim e eu rapidamente
falei "boa noite". Com o coração batendo a mil eu corri para o banheiro para
pegar a loção. Eu não sei por que, mas eu estava com muito medo dele. Mais do
que o normal. Quando eu voltei a porta ainda estava aberta, mas ele já não
estava mais lá. Mas quando eu passei em frente à porta, o meu coração gelou.
O varal estava um pouco desarrumado. Fora isso não parecia que tinha havido
ninguém lá. Só que tinha. Em baixo de onde o varal estava um pouco desarrumado,
tinha duas pegadas. A madeira do chão estava toda molhada da garoa, menos aquele
lugar, que estava seco, na forma de dois pés, como se a pessoa que estava lá
estivesse lá desde antes da chuva começar, apenas olhando lá fora e pensando.
Antes de subir eu olhei para o chão da varanda e vi que eu tinha feito algumas
pegadas, com a água da chuva, de quando eu tinha saído antes e depois quando eu
sai de novo, mas não tinha nenhuma pegada perto de onde estava aquelas duas
marcas secas no chão. Eu não quis ficar lá nem mais um pouco, só entrei, fechei
a porta e subi correndo para a minha cama.
Até hoje eu ainda não entendi direito o que aconteceu naquela noite. Já era
tarde, estava escuro e chovendo, e talvez eu tenha imaginado tudo aquilo. Mas eu
não conheço ninguém chamado Mauro, e eu nunca vou esquecer aquela sensação de
que alguma coisa não estava certa e do som daquela voz, ou da impressão de estar
olhando para algo que simplesmente não queria ser visto.
Gabi - São Paulo - S.P.